A Copa é burra

3 nov

A abordagem que este blog fez até então sobre a realização da Copa de 2014 no Brasil já se fez clara. Porém, se é preciso mais, que assim seja.

A Copa no Brasil é algo completamente burro e sem fundamento. O problema, entretanto, é que vai acontecer. O problema é que alguns lucrarão quantias absurdas com o evento. Os gastos com verbas públicas, o legado inexistente que ficará para trás e a vocação pela corrupção no Brasil descreditam 2014 de qualquer esperança.

É impensável que um país tão deficiente e desigual direcione verbas públicas para obras de estádios e complexos esportivos para abrigar um evento como a Copa do Mundo. A justificativa é que geraria recursos com turismo e ajudaria a desenvolver determinadas regiões. Impossível, porém, acreditar que os R$ 500 milhões gastos na Arena Amazônia, em Manaus, trarão algum retorno à população local, por exemplo.

E depois da Copa? Estádios milionários ficarão sem uso e jogados às traças – pelo alto custo de manutenção – pelo país. A rede hoteleira, intensificada para abrigar o evento, será muito maior que o necessário. É óbvio que haverá vantagens, com algumas obras de infraestrutura, mas longe de se justificar o valor total gasto com a Copa.

Reflexo negativo, ainda, temos dos Jogos Pan Americanos de 2007, no Rio, no qual foi comprovado o superfaturamento acima de 1000% no total dos gastos. Vendo que, para a Copa de 2014, o gasto é extremamente superior ao do Pan, o que esperar do rombo financeiro?

Por tudo isso, este blog insiste na discussão contra a má gestão dos recursos e a falta de transparência nos gastos para 2014. Agora, já sem volta, resta marcar de perto os problemas que já previstos, mas que mesmo assim poderiam ser evitados.

Na orla dos rebelados

30 out

Orlandinho sempre foi espevitado. “Trabalhar mais”, repetia por onde passava. O que queria, de fato, ninguém decifrava ao certo. Para ele, tudo estava tranquilo, numa boa – coube até tapióca na agenda. Um dia, porém, a casa caiu. Seu rebanho, por sua vez, raiz de todos os males, permaneceu. Quem outrora se Rebelou foi, então, chamado para pastorear os alqueres de Orlandinho. Ora, de que vale a solução numa troca pelo irmão?

Floriano Pesaro: ‘Recurso público no privado é um erro’

19 out

Líder do PSDB na Câmara Municipal de São Paulo, Floriano Pesaro, um dos 15 derrotados vereadores que se colocaram contra os incentivos fiscais ao Corinthians para abrigar a abertura da Copa em Itaquera, não tem dúvidas: a votação que definiu a concessão de benefícios ao clube foi aprovada pela paixão clubística e pelo medo da represálias.

Em breve entrevista ao blog, relatada abaixo, o vereador – que representa partido aliado ao prefeito Gilberto Kassab e o mesmo do Governador Geraldo Alckmin - revela os motivos pelos quais se colocou contra o Projeto de Lei 288/2011 e seus incentivos de até R$ 420 milhões para a obra.

Por que decidiu votar contra o Projeto de Lei, mesmo estando à frente do PSDB, de Geraldo e aliado a Kassab, idealizadores da iniciativa? 
- O motivo principal foi por se tratar de um estádio particular, de um clube. Recursos públicos investidos em obras privadas é algo que considero um equívoco, um erro, e acho que o recurso disponível deveria ser utilizado para melhorar infraestrutura urbana, melhorias no transporte, condições de habitação, novas áreas de lazer, treinamento. Outros tipos de incentivo seriam mais pertinentes.

Vimos que nessa votação os partidos estavam divididos, não havia uma opinião fechada entre as legendas. Alianças entre partidos serviram de alguma coisa nesse caso? 
- Não. Foi uma coisa completamente diferente, teve a ver com a Copa e futebol, não tenho a menor dúvida.

No total, foram 39 votos a favor e apenas 15 contra. Acha que pesou o voto de vereadores corintianos? E quem estava fora, por que votou a favor?
- Só a Bancada Corintiana conta com 28 vereadores, que já seria suficiente para aprovar. Mas teve uma pressão do executivo fortíssima, o presidente do Corinthians (Andrés Sanchez) veio à Câmara para conversar conosco, e é o conjunto, é a coisa da Copa, também receio de ficar contra opinião pública. Fui contra desde o início por princípio, pelo fato da obra ser privada.

No mesmo dia que a lei foi sancionada, o governador Geraldo Alckmin anunciou a injeção de cerca de 70 milhões para fazer as arquibancadas móveis. Sentiu-se enganado pelo projeto de lei que a Câmara acabara de aprovar? Pensou em fazer algo para barrar os incentivos? 
- É, o Geraldo ainda não disponibilizou, está procurando algum investidor para pagar. Eu não me senti enganado porque fui desde o início contra tudo isso. Talvez essa possa ser a opinião de quem votou a favor.

O poder de um aliado fiel

12 out

Quando o prefeito Gilberto Kassab sancionou a lei que previa os benefícios fiscais em até R$ 420 milhões ao Corinthians, para a construção do estádio em Itaquera, uma presença chamou a atenção durante a cerimônia, no próprio terreno onde está sendo erguida a arena. O Padre Rosalvino, já conhecido do prefeito, governador e de alguns vereadores, cumprimentava entusiasmado cada um deles.

Padre Rosalvino é uma figura bem conhecida na luta pela reivindicação de melhorias para a Zona Leste. Nasceu na Espanha, tem hoje 80 anos, mas dedicou quase metade de sua vida defendendo Itaquera. Em 1980, fundou a Obra Social Dom Bosco, uma instituição beneficente e religiosa, que atende dezenas de milhares de pessoas anualmente na região.

Para a sorte de Kassab e Cia., Padre Rosalvino crê que o saldo da construção de um estádio de abertura da Copa de 2014 em Itaquera será positivo para a comunidade. Não se julga, aqui, a escolha e a competência de quem comanda a Obra Social Dom Bosco. A instituição, inclusive, faz um trabalho importante na região, com centros de educação infantil, de formação cultural, cursos profissionalizantes, auxílio aos idosos. Entretanto, acredita que a Copa trará benefícios.

Se quem lidera a Obra Social Dom Bosco, que atende milhares de pessoas, concorda com a Copa em Itaquera, grande parte da barreira da comunidade já foi furada. As obras de acesso ao futuro estádio corintiano irão forçar o alargamento da Radial Leste e outras avenidas e ruas que dão acesso ao local, por exemplo. Com o alargamento, virão desapropriações e muitos terão de deixar o local onde moram. Essa é apenas uma das questões contra a qual parte da comunidade populacional já inicia sua luta. Porém, uma forte liderança religiosa, como a de Rosalvino, desencoraja a postura contrária à adequação do estádio em Itaquera para atender os desejos da Fifa para 2014.

Aborto sensato. Por que não?

6 out

Este blog paralisa, momentaneamente, a cobertura sobre os preparativos para a Copa do Mundo de 2014 para tratar sobre um problema de saúde pública. O aborto ilegal, feito por cerca de 1 milhão de mulheres a cada ano no Brasil, permanece sob os olhares retorcidos dos movimentos conservadores e religiosos e continua gerando vítimas. É preciso evoluir e ter flexibilidade na discussão, e enxergar que determinados casos necessitam de um amparo maior do que o oferecido por clínicas clandestinas.

Das cerca de 1 milhão de mulheres que se submetem ao aborto em clínicas clandestinas por ano no país, mais de 200 mil saem com lesões profundas ou perfurações no útero. Além disso, são registradas 250 mortes por ano durante os procedimentos, segundo organizações que defendem os direitos das mulheres.

A sociedade deveria dar meios para que, em determinados casos, mulheres grávidas pudessem realizar o aborto de uma maneira saudável. Hoje em dia, o aborto é crime no Brasil e uma mulher jovem, entre 20 e 30 anos - perfil predominante das gestantes que abortam – , que não tem condições financeiras  de criar outro filho, por exemplo, depara-se com um dilema moral em sua vida. De um lado, a igreja, à qual ela é fiel e na qual a sociedade em que ela está inserida se apoiará  para julgá-la; do outro, a realidade de não ter meio para oferecer uma vida digna à nova criança e ao resto da família.  

Nestes casos é mais do que sensato que a mulher deveria ter direito ao aborto. Se a mulher comprovar que não desejou a gravidez e que não tem condições para criar o filho, por que não realizar o aborto até três meses de gestação, quando o feto ainda não está vivo, de maneira legítima, segundo a ciência?

Pior do que clínicas clandestinas, que não oferecem condições mínimas de trabalho e higiene para os procedimentos e que, quando exigem, não atendem ao poder aquisitivo da maioria das interessadas no aborto, são os métodos encontrados fora das clínicas. Estes são utilizados pelas mulheres que não conseguem, por condições financeiras, realizar o aborto em uma clínica e representam os maiores riscos para a saúde da gestante.

É preciso esta abertura inicial para que se comece a discussão pela legalização total ou apenas parcial do aborto. Até quando a lei vai ser refém da igreja?

A Crise de 2008 e a política de alianças da Fifa

1 out

A crise econômica iniciada em 2008, após a falência do banco norte-americano Lehman Brothers e as consequentes quebras de grandes instituições, teve grande influência na escolha da Fifa – entidade máxima do futebol mundial – pelos países sedes das próximas edições da Copa do Mundo.

A Fifa também contou com a sorte. O Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva, ainda um ano antes do início da crise nos Estados Unidos, era tido como favorito para 2014. A crise estourou, as ondas largaram pelo Atlântico rumo à Europa e, por aqui, apenas a tal “marolinha” chegou.

Atenta às mudanças econômicas em processo no mundo, a Fifa fez o possível para selecionar os supostos menos atingidos para sediar seus eventos. Como as candidaturas haviam sido lançadas antes mesmo do início das quebras nos EUA, pouco pôde ser feito. Para a Copa do Mundo de 2018, a Rússia foi escolhida como palco. O Qatar, que começou a se aventurar no futebol mundial no início dos anos 90, ficou com o evento seguinte, de 2022.

Os candidatos para 2018 eram Bélgica, Holanda, Inglaterra, Portugal e Espanha, além da própria Rússia. A última, por sinal, viu sua população local ser pouco afetada pelos abalos da crise. Apesar de ter sofrido de forma semelhante com crises nas grandes empresas, como em outros países, na Rússia menos de 1% dos habitantes se insere do mercado de ações. Nos EUA, por exemplo, o índice atinge a casa dos 80%.

No Qatar, destino da Copa em 2022, a Fifa viu o óbvio. Pelo menos duas décadas de poder econômico por conta do petróleo estão garantidas.

As escolhas da Fifa evidenciam a intenção de abrir espaço para países que estão se posicionando no topo da geopolítica global. Brasil, Rússia e Qatar, de suas diferentes maneiras, passam pela crise mundial atual sem sentir os abalos tão intensamente. Na Fifa, pelo menos, já colhem os frutos.

Vale parar tudo?

22 set

Quanto vale um jogo da Seleção Brasileira em seu país durante uma Copa do Mundo? E o de outras importantes nações? A partir de agora, começam as definições sobre o planejamento das atividades das cidades-sede da Copa do Mundo de 2014.

Na última semana, o governo enviou ao Congresso Nacional a Lei Geral da Copa, que prevê que o Distrito Federal, os estados e os municípios poderão decretar feriado quando recebam em seus territórios partidas da competição. Uma Copa do Mundo, entre 32 seleções nacionais, tem 64 jogos.

É óbvio que em dias de jogos da Seleção Brasileira o país inteiro estará pré-disposto a parar de funcionar, como já ocorre de maneira semelhante em outras Copas do Mundo, fora do Brasil. Além das festividades em verde e amarelo, que podem ocorrer em até sete dias, caso a equipe chegue à final da competição, é muito provável que feriados estaduais sejam decretados quando houver dois jogos no mesmo dia em um mesmo local. Nas Copas, nas maiores sedes, disputa-se um jogo pela manhã em outro à tarde em um mesmo estádio, durante a primeira fase do torneio.

Vale lembrar que São Paulo será escolhida, em outubro, como sede da abertura da Copa do Mundo, no futuro estádio do Corinthians. Com o palco principal do torneio, as possibilidades de paralisações da cidade aumentam. Entre torcedores e jornalistas, em um dia com dois jogos em Itaquera, por exemplo, haverá um fluxo de centenas de milhares de pessoas em direção à Zona Leste. Em São Paulo, isso não funciona, pelo menos por enquanto.

No cenário universitário vale a ressalva: caberá aos estudantes ou à direção da instituição decretar a paralisação das atividades? Quem deve, de fato, julgar? Na PUC, em São Paulo, palco que originou este blog, a mesma situação acontecerá. Caso a universidade pare as atividades nos dias de jogos do Brasil e nos dias de jogos na Arena Itaquera, principal sede do torneio, pode não haver aula em mais de 20 dias. Se a Copa é em junho, será uma melhor alternativa antecipar as férias de meio de ano para não comprometer o fim de um semestre.

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